Por Leila Holmes


Acordei com um barulho vindo da casa ao lado, o que era estranho, pois ninguém morava lá há dois anos. Levantei-me e fui até a janela, vi um caminhão de mudanças e um carro chegando. Fiquei observando até que um casal e dois garotos saíram do carro e entraram na casa. Era estranho tanto movimento naquela casa depois de dois anos de silêncio a calmaria. Continuei a observar toda aquela agitação, móveis saindo do caminhão, a mulher orientando os homens que entravam e saíam e lá trás no jardim os dois garotos rindo. Virei-me e observei o meu quarto por um momento, arrumei minha cama e desci. Não havia ninguém em casa, então coloquei meu casaco e saí em direção ao parque que havia no final da rua, um ótimo lugar para andar e relaxar. Cheguei e sentei num banco embaixo de uma grande árvore, o vento batia e bagunçava todo o meu cabelo. Coloquei os fones de ouvido e fechei os olhos.
- Cuidado! – Alguém gritou. Senti a bola me acertando na barriga, e abri então os meus olhos. – Me desculpe, eu…
- Não precisa se preocupar, está bem? Eu estou bem. – O garoto deu um sorriso tímido e saiu.

Respirei fundo e saí, fui buscar um lugar mais calmo e de preferência sem garotos jogando bola. Sentei no chão, próximo á beira do lago. Abaixei a minha cabeça e procurei refletir sobre tudo o que havia acontecido nesses últimos dois anos. Depois da morte de Sofia, muita coisa mudou. Ninguém era mais os mesmo, todos viviam como se estivessem com medo de alguma coisa, ou de alguém. O pior é que pouco antes de perder a minha melhor amiga, eu havia perdido minha mãe. Foi tudo muito rápido, doloroso…
- Você é a garota que mora ao lado da nossa casa, não é? - Abri um dos olhos e pude perceber que eram os dois garotos novos.
- Sim. – Levantei-me – E então, por qual motivo se mudaram para cá?
- Nossos pais queriam um pouco de sossego. – O mais velho falou. – Então, nada melhor do que o bairro mais calmo de Londres, não é mesmo? - Rimos.
- Já conhecem a região?
- Não. – O mais novo falou.
- Venham comigo garotos, eu mostro pra vocês como se divertir por aqui.

***

- Por aqui tem uma trilha, venham! - Disse entusiasmada.
- Esse lugar é muito bonito. - Guilherme falou, estava encantado com a beleza daquele lugar.
- Costumava vir aqui com minha melhor amiga, . Lá embaixo tem uma cachoeira, mas fica um pouco longe. - Na hora lembrei-me da última vez que fui ao parque com , estávamos tão entusiasmadas e ela até pediu pra mim tirar uma foto dela, guardo essa foto até hoje.
- E onde está sua amiga, ela mora há muito tempo aqui? Podemos a chamar pra vir aqui amanhã, não é? - Guilherme perguntou, parecia estar interessado.
- Infelizmente não vai ser possível.
- Por quê? - Perguntou Frederico.
- Porque ela morreu há dois anos, ela adorava vir aqui, é tudo tão familiar… - Respirei fundo. - Por isso venho aqui, me lembro dela e de tudo o que passamos.
- Ah, sinto muito.
- Não, tudo bem. - Sorri.
- Você tem alguma foto dela? - Perguntaram bem curiosos.
- Algumas. Comigo tenho apenas esta no celular. - Falei tirando o aparelho do meu bolso.
- Ela era muito bonita, ela parecia feliz e era tão jovem.
- Sim, tinha os olhos mais lindos que já vi.
- Não queremos fazer você tirar esse sorriso do rosto. Onde fica a cachoeira que falou? Podemos ir lá.
- É por ali. - Apontei e fomos seguindo.
- Falta muito? - Frederico me perguntou.
- Um pouco, está cansado?
- Sim, um pouco. - Ele sorriu.
- Acho melhor voltarmos, já está anoitecendo, não é bom ficar por aqui à noite.
- Certo, mas voltamos amanhã. Combinado?
- Tudo bem, tem muita coisa pra vocês verem ainda.
Voltamos e fomos andando juntos para casa. Paramos em frente a minha casa e me despedi deles.
- Obrigada por nos mostrar todos esses lugares. Até amanhã. - Frederico falou sorrindo.
- Obrigada . Posso te chamar assim, não é?
- Claro! - Sorri. - Agora eu tenho que ir, até amanhã.

Entrei em casa e encontrei meu pai na sala, ele abaixou o jornal e ficou me encarando. “E agora… Mais reclamações!” Pensei. Parei na sala e fiquei esperando meu pai começar com as perguntas. Não demorou muito, ele deu um suspiro e então começou:
- Onde estava, posso saber? – Ele perguntou me encarando com uma expressão séria, podia ver em seu rosto o quanto ele estava cansando.
- Saí um pouco, fui mostrar os lugares legais que existem aqui para os nossos novos vizinhos.
- Você deveria estar organizando suas coisas. Amanhã começam as aulas…
- Eu sei, não precisa ficar me lembrando disso toda hora. – Falei o interrompendo.
- Já comeu?
- Não. – Falei largando os meus sapatos perto da porta e pendurando o meu casaco.
- Quer pizza?
- Tanto faz. – Falei friamente. Meu pai estava sempre descontando tudo em mim, toda a sua raiva, o seu cansaço… E isso nos afastava cada vez mais. Confesso que isso de trata-lo com frieza só fazia piorar as coisas, mas eu estava cansada de ser a boazinha quando tudo que eu recebia eram palavras grosseiras. Raro eram os momentos como esse, nos quais ele conseguia abrir a boca e de lá sair um pouco de gentileza.
- Posso pedir uma... Qual o sabor que você quer?
- Pode escolher. – Dei um sorriso fraco e subi as escadas em direção ao meu quarto. Joguei-me na cama e pude sentir meu travesseiro sendo molhado pelas lágrimas que rolavam descontroladamente pelo meu rosto. Apenas uma coisa me incomodava agora: Aquele vazio que existia dentro de mim. O buraco que havia sido feito desde que minha mãe havia partido. Adormeci. Acordei com o barulho do despertador e tocava pela segunda vez. Levantei-me e saí correndo para o banheiro, estava atrasada. Vesti a farda do colégio, peguei a minha bolsa, coloquei todo o material dentro e desci.

***

- Você não me chamou ontem… E nem me acordou, eu estou atrasada sabia? - Falei para o meu pai, que estava na mesa tomando café.
- Você dormiu. - Ele bebeu um pouco do café e continuou. - E você tem que ser mais responsável, pare de preguiça e levante-se na hora certa!
- Ah claro. Muito obrigada, eu já vou. - Dei um sorriso irônico e saí batendo a porta. Fui caminhando até que ouvi um carro buzinando, eram os garotos. Fui até eles, Guilherme estava sorrindo para mim e Frederico já estava dentro do carro.
- Bom dia . - Ele sorriu e me beijou na bochecha. - Quer carona?
- Bom dia. - Falei sorrindo. - Oi Frederico.
- Olá - Ele deu um sorriso tímido. Frederico ficava encantador quando sorria timidamente.
- Não sabia que já estavam matriculados. Pensei que só começavam na semana que vem.
- Nossa mãe nos matriculou desde a semana passada. - Guilherme sorriu mais uma vez. - E então, vem?
- Claro! - Entrei no carro. A mãe dos garotos entrou no carro e me olhou através do retrovisor.
- Olá! … Acertei?
- Sim. - Sorri.
- Me chamo Clarisse, sou a mãe dos meninos. - Ela sorriu para mim. Clarisse tinha olhos claros e cabelos castanhos. Era jovem e bonita.
- Mãe, vamos? – Guilherme falou revirando os olhos.

Durante o caminho para a escola ficamos todos em silêncio. Frederico ficou de cabeça baixa, e não falou com ninguém. Ele era tímido, muito calado, mas era lindo. Algo nele me atraía, tinha algo nele que eu jamais encontrei em garoto algum. Chegamos à escola e nos despedimos de Clarisse. Acompanhei os garotos até o pátio, e mostrei para Guilherme onde ficava a sua sala. Frederico fazia parte da minha turma, e isso era bom, pois ele não ficaria sozinho. Assim que entramos na sala, encontramos sentadas no fundo as patricinhas, típico de toda turma não é mesmo? Verônica, Camile, Katie e Victória. Esses eram os nomes das garotas que eu mais odiava no mundo inteiro. Nos sentamos do outro lado da sala, perto da minha amiga Alisson.
- Oi Alisson. - Ela sorriu para mim, então comecei as apresentações. - Esse é o Fred, ele é o meu novo vizinho.
- Oi Fred.
- Oi Alisson.
- Nossa, isso foi realmente animado. - Eles riram.

A primeira aula foi de matemática, as outras duas de biologia. O sino tocou e nós descemos para o intervalo. Compramos nossos lanches e fomos para uns bancos que haviam atrás da quadra do colégio, eu e Alisson sempre ficávamos lá conversando sobre tudo o que vinha em nossa cabeça. Mas aquele dia foi diferente, contamos para Frederico tudo sobre o colégio e os seus alunos. Não deixamos de falar das patricinhas, claro. Quando subimos para a aula, o professor de química pediu para formarmos duplas, e acabou acontecendo a primeira de muitas tragédia do dia… Verônica e Frederico ficaram juntos. Eu e Alisson nos olhamos e ficamos sem acreditar. Os dois conversaram a aula inteira, no final ele voltou e sentou do nosso lado. Quando as aulas acabaram, decidimos acompanhar Alisson até a sua casa. Chamei Guilherme para vir conosco também.
- Vocês são amigas há muito tempo?
- Há uns três anos. - Respondi. Guilherme chegou e colocou o seu braço em volta de mim e sorriu.
- Oi gente. - Alisson apenas acenou, e Fred sorriu. - Como foi o dia de vocês hoje?
- O nosso? - Falei. - Foi ótimo. Não vi você no intervalo, onde estava?
- Eu estava com uns meninos aí. - Ele abaixou a cabeça e deu um sorriso.

Nos despedimos de Alisson e seguimos o nosso caminho para casa. Chegamos e me despedi dos meninos, Guilherme disse que queria falar comigo. Fred nos olhou por um momento e entrou.
- O que você quer falar comigo?
- Ah, sabe… Desde que chegamos, não tivemos um tempo apenas para nós dois. - Eu fiquei o observando por alguns segundos, sem acreditar. - Se é que você me entende. - É, eu entendi. - Ele se chegou mais perto e segurou minha mão.
- É que... Tem algo em você que me atrai.

Não tive nem tempo para responder, apenas fechei os meus olhos. Seus lábios encostarem-se aos meus. Senti seus braços sendo colocados á minha volta, tentei empurrá-lo mas não obtive sucesso. Algum Tentei novamente e dessa vez, consegui! Ele ficou parado me olhando.

- Desculpa… - Ele falou. Fiquei em silêncio. Peguei minha bolsa e entrei em casa e subi para o meu quarto.